Mostra Política de Cinema da ALRS debate o processo de redemocratização do Brasil

Foto de Pepe Vargas

Pepe Vargas

A Mostra Política de Cinema – 190 Anos da Assembleia Legislativa – Memória e Reflexão realizou na noite de ontem (1º) a exibição do filme “Mudança”, de Fabiano de Souza. Os ex-governadores Olívio Dutra, Germano Rigotto e o presidente da ALRS, deputado Pepe Vargas debateram o processo de redemocratização do país.

O diretor do filme “Mudança”, Fabiano de Souza, saudou e agradeceu a todos os presentes e sublinhou que filme nos transporta para o dia 15 de janeiro de 1985, quando o Congresso elege Tancredo Neves como presidente do Brasil por meio do voto indireto. Nesse contexto de mudança, Reinaldo (Gustavo Machado) e seu filho adolescente Caio (Guili Arenzon) voltam do litoral para Porto Alegre a fim de comemorar o fim da ditadura militar.

O filme procura mergulhar na intimidade de dois personagens que têm relações diferentes com o que está acontecendo. O sociólogo Reinaldo vê, naquele instante, a possibilidade de o país melhorar e de sua trajetória pessoal alcançar novos voos. Seu filho adolescente, porém, não sabe o que quer dizer a palavra “alienado” e está mais preocupado com as novas bandas que surgem no Brasil e no mundo. Enquanto isso, o país respira mudança – ou apenas sonha com ela.

Fabiano afirma que a proposta era tentar flagrar uma viagem em que expectativas diferentes sobre o mesmo tema convivem. Impasses, dúvidas, frustrações se misturam com fagulhas de empolgação. Cada personagem se afasta e se aproxima do outro, em histórias paralelas que também se cruzam”.

Fabiano perguntou aos debatedores como eles, que vivenciaram aquele momento histórico, enxergam os primeiros anos da década de 1980, até 1984, com o naufrágio da emenda Dante de Oliveira.

O ex-governador Germano Rigotto saudou a todos os presentes, e de modo especial o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Pepe Vargas, pela maneira como vem conduzindo as comemorações dos 190 Anos da nossa Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Cumprimentou e parabenizou o diretor Fabiano de Souza pelo excelente trabalho e história como cineasta, especialmente com este trabalho, que retrata o clima vivido no país no início dos anos de 1980, período da redemocratização do Brasil. “Também quero dizer da minha alegria de estar neste evento com esta figura histórica, este governador que eu aprendi a respeitar, mesmo em determinados momentos estarmos disputando até o mesmo cargo. Mas o Olívio é um exemplo de ética, de dignidade, de competência, de trabalho sério e um homem que, dentro da vida pública brasileira é um exemplo”, a quem pediu uma salva de palmas.

Rigotto destacou que em 15 de janeiro de 1985 ele estava na Assembleia Legislativa RS, mas antes deste dia, disse que esteve nas ruas, defendendo a emenda das Diretas, lutando pela redemocratização. “Eu e o Pepe somos de Caxias e eu paguei um preço naquele período, pois eu era da diretoria do Grêmio Estudantil do Cristóvão de Mendonça, onde tínhamos um mural em que contestávamos o que estava ocorrendo, com a falta de liberdade, com a falta de democracia e a luta pela redemocratização. Na verdade, houve uma intervenção no Grêmio Estudantil e eu tive que depor junto ao diretor da escola, mostrando que eu tinha parte naquele mural, onde havia assinado material ali afixado e, quando fui fazer a minha rematrícula, eu e toda a diretoria do Grêmio estudantil ficamos impossibilitados de continuar no colégio, apenas porque dizíamos que queríamos a redemocratização. Que queríamos a volta da liberdade e, por isso fomos afastados”.

“Quando eu vim para Porto Alegre, para cursar Odontologia e Direito na UFRGS, eu fazia parte dos dois centros acadêmicos (Oton Silva e André da Rocha) e, em certa ocasião, tendo ido ao QG do Exército, lá reconheceu um colega da turma de Direito, que era militar, e que frequentava o mesmo curso e lá estava para delatar aqueles que eram considerados subversivos”, relatou Rigotto.

Quando em 1985 aconteceu o grande ato pelas Diretas e a escolha de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, “a gente tinha tido aquele revés da não aprovação da emenda das Diretas do Dante de Oliveira, mesmo com as grandes manifestações sendo realizadas no Rio Grande do Sul e pelo Brasil afora”. Aquilo foi muito ruim e pesou muito para cada um que estava lutando pela redemocratização, acrescentou. “Mas a derrota da emenda das Diretas significou também o embrião para que tivéssemos, através do Colégio Eleitoral, o processo de eleição do Tancredo Neves, que tomaria posse em 15 de março, mas teve que ser hospitalizado e viria a morrer 34 dias depois. Este foi um período onde o Brasil vibrou com a redemocratização, que iniciava com o processo de eleição indireta de Tancredo Neves e sofreu aqueles 34 dias que antecederam a morte de Tancredo. Mas a morte de Tancredo Neves teve um papel fundamental para garantir o processo de redemocratização, pois Tancredo, antes de morrer, garantiu a posse de seu vice, José Sarney”.

O ex-governador Olívio Dutra saudou a todos e todas presentes no evento, especialmente o ex-governador Rigotto, com quem disse ter convivido em situações das mais variadas, mas sempre aprendeu bastante com esta convivência, na luta aberta, na luta política, democrática, assim como o companheiro Pepe Vargas. Olívio ressaltou que neste período era um trabalhador que estava ali na UFRG estudando e que fazia seu expediente bancário na parte da tarde e, mesmo por isso levou um tempo maior para se formar. Destacou que a democracia deve ser sempre aperfeiçoada, ressaltou Olívio ao saudar Pepe Vargas e parabenizá-lo por estar na presidência desta Casa e pelo evento que propõe esta discussão para que a democracia possa se espraiar e se enraizar mais; lembrando “sempre que a democracia é um processo, uma obra aberta, não uma coisa pronta e acabada, até porque a realidade da vida da gente o avanço científico e tecnológico exige que a sociedade se organize diferente, que a democracia se aperfeiçoe, se aprofunde e se espraie, mas tem todo risco que sem demora a moderna tecnologia da informação imediata e instantânea substitua o presencial, a reunião, a troca de ideias olhando um olho no outro”. Tudo isso tem que ser trabalhado, na ideia que a democracia é uma relação humana, uma relação entre setores, segmentos sociais, igrejas, sindicatos, as cooperativas, as organizações comunitárias e tantas formas em que o povo se encontra, se reúne para levantar questões e encaminhar respostas e acompanhar a sua execução, ponderou.

Olívio destacou que a greve de 1979, quando presidia o Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, foi um movimento que surgiu da base porque a situação econômica, comandada por Delfim Neto e com a política de “fazer o bolo crescer para depois distribuir”, destinava aos trabalhadores apenas as migalhas. Esta greve levou a uma intervenção no Sindicato dos Bancários, em 1979, na ditadura, onde ele e outros companheiros foram presos. “A nossa luta era antiga, pela volta dos exilados, pelo fim da ditadura, pela libertação dos presos políticos, além das lutas de como pensar a cidade, o transporte público, a moradia, a segurança”.

O ex-governador também destacou que a ditadura acabou como quiseram os generais, segura e sob controle, tanto que a anistia também anistiou os torturadores, como ocorreu nestes ultimos tempos. “A reinvindicação de uma anistia que não devia e não deve existir, pois fragiliza a própria democracia. Precisamos fazer a democracia deslizar por um terreno de maior diversidade, pluralidade, respeito e fazer um debate de qualidade sobre o desenvolvimento social, econômico, ambiental e cultural. Assim a democracia é uma efervescência”.

Pepe Vargas salientou que aqueles anos da década de 1980 foram o clímax do que vinha sendo germinado desde meados da década de 1970, destacando que se sente honrado de estar lado a lado com dois ex-governadores da estatura de Olívio Dutra e Germano Rigotto.

O presidente da ALRS também sublinhou que a sua geração não teve a oportunidade de se organizar em grêmios estudantis, pois ocorreu o fechamento das entidades que congregavam os estudantes, como UNE e UBES. Não tinha grêmio, tinha “Centro Cívico” e não tinha eleição, pois quem escolhia a direção do Centro Cívico era a direção da escola. “Também não tinha eleição para diretor de escola, que era escolhido pelo regime. Por isso, de certa forma, foi uma geração amordaçada. Para a gente, que tinha uma visão crítica, sobrava a ideia de que tínhamos que derrotar os candidatos do partido ditadura, a Arena (Aliança Renovadora Nacional)”.

Pepe lembra que em 1974 a ditadura levou uma “surra” nas eleições, sem eleições para presidente, no Rio Grande do Sul o candidato ao senado era Paulo Brossard. Como eles perderam as eleições, inventaram os senadores “biônicos”, escolhidos pelo presidente da República, Ernesto Geisel, para não perderem o controle do senado. Em 1976, novamente a ditadura levou uma “sova” nas eleições municipais, onde o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) fez uma grande votação e onde ele fez campanha para Germano Rigotto em Caxias do Sul.

Eu entro na universidade em 1979, recordou Pepe, ano de reconstrução da UNE e quando iniciamos uma greve contra as proficiências existentes na unirveridade. A greve dos metalúrgicos de São Bernardo (1978) teve um impacto enorme, pois há mais de dez anos não ocorriam lutas de trabalhadores por salário, desde as greves de Osasco (SP) e Contagem (MG), em 1968. Com isso o movimento foi crescendo, concomitantemente aos problemas econômicos enfrentados pelo Regime Militar com o fim do “milagre econômico” e do brutal arrocho salarial enfrentado pelos trabalhadores.

“Na minha cabeça, o dia em que a ditadura acabou foi em 1984, antes da votação da emenda das Diretas. Lá em Caxias do Sul temos a Festa da Uva em fevereiro. Em fevereiro, o general Figueiredo, aquele que dizia para o povo esquecer dele, pois ele preferia os cavalos, veio para a Festa da Uva e nós resolvemos fazer um ato contra o Figueiredo. Ele (Figueiredo) no palco principal durante o desfile dos carros alegóricos e nós protestando e a repressão foi tentar abafar a manifestação e os militares recuaram. Mas não era comum eles recuarem. Lembro também que mais de uma vez, quando fazíamos manifestações do movimento estudantil aqui em Porto Alegre, corríamos para a Assembleia Legislativa, mais especificamente para pedir socorro à Comissão de Direitos Humanos, que sempre foi muito parceira, para nos proteger. Para mim, ali ficou claro. Acabou esta “porcaria” desta ditadura, pois eles não conseguem nem nos arrancar os cartazes. Daí perdemos a emenda Dante de Oliveira e veio o processo descrito anteriormente pelo Rigotto e pelo Olívio”, descreveu Pepe.

Para Pepe, a redemocratização do Brasil é um processo que se inicia lá na década de 1970, um acúmulo organizativo do povo brasileiro nas suas várias entidades representativas dos movimentos sociais e também um acúmulo na luta institucional, elegendo um maior número de parlamentares e prefeitos que eram contra a ditadura e foi criando condições para a redemocratização, superando os governos militares, veio a nova Constituição, com limites, mas mais democrática e com um conjunto de direitos nela contemplados, mas que ainda temos muito que lutar para concretizá-los, finalizou.

O presidente da Assembleia Legislativa e o ex-governador Germano Rigotto recordaram também a importância do movimento cultural e falaram de músicas como “Cálice”, “Cio da terra” e a importância do teatro e do cinema nos debates de outros temas importantes para a sociedade brasileira. Também os festivais de músicas aqui no estado sofreram a influência deste período, como ocorreu com as “Califórnias”, que incorporaram temas da luta e com conteúdos sociais muito fortes, culminando na redemocratização do Brasil.

Fabiano de Souza fez questão de destacar que ao mesmo tempo em que havia esta efervescência política, havia também uma efervescência cultural. No filme destacamos um pouco da cultura jovem que começava a aparecer no Brasil e no Rio Grande do Sul. No nosso estado, um dos marcos deste movimento foi a eclosão da MPG (Música Popular Gaúcha), que aparece no filme numa canção de Nei Lisboa, gravada no seu primeiro disco “Para viajar no cosmos não precisa gasolina”, de 1983, intitulada “Doody II”.

O ator Marcos Contreras leu a canção “Doody II”, de Nei Lisboa, e Guili Arenzon leu o “Romance ideal” dos Paralamas do Sucesso.

Olívio Dutra encerrou a sua participação recitando o poema “Mão dadas”, de Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Pepe Vargas encerrou sua participação destacando que a cultura democrática no nosso país ainda é, por um lado tênue, mas por outro com uma força significativa que impediu que ocorresse um novo golpe militar. Vivemos um tempo, não só no Brasil, mas em vários países do mundo onde a democracia tem sido relativizada. O que faz com que esta democracia seja relativizada e que propostas muitas vezes que parecem ser aterradoras, estúpidas, consigam mobilizar tantas pessoas. Não necessariamente pessoas que tenham uma visão autoritária. O segundo fator que merece a nossa reflexão é que recém aprovada a Constituinte de 1988 e já havia um debate que dizia que a Constituinte não cabia no orçamento e aí começou todo um conjunto de flexibilizações da Constituição. “Acho que esta situação que vivemos no país, onde o sistema financeiro tem um peso brutal sobre a economia, o Congresso Nacional e sobre as instituições, para mim é o maior perigo que a gente tem para consolidar a democracia. Não é possível que a gente tenha um país que tem uma inflação que está dentro da meta e o Banco Central mantém uma taxa de juros dita como a mais alta do mundo e aí dizem que tem que cortar o orçamento. Cortar de onde? Se pegarmos o orçamento de 2024, já executado, se falarmos de saúde, educação, previdência social, assistência social e o investimento na infraestrutura do país, temos em torno de um trilhão de reais, arredondando, mas quando somamos gastos com juros da dívida pública e juntamos a isso as renúncias fiscais, temos um trilhão e quatrocentos milhões de reais”.

“Essa democracia, que no plano da institucionalidade democrática continua existindo, mas se ela não vier materializada de ganhos para parcelas expressivas da população, que vive numa situação muito difícil, e eu falo dos pobres, dos miseráveis, dos remediados, que acabam virando prisioneiros de propostas demagógicas, populistas de extrema direita e achando que aquilo vai resolver a vida das pessoas. Acho que isto é um grande risco que nós corremos e é um grande debate que temos que fazer”, finalizou Pepe Vargas.

Foto: Fernando Gomes

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